Na noite de 1º de junho de 2026, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) colocou o Brasil no centro de uma das maiores disputas comerciais bilaterais da história recente. Após um ano de investigação, o órgão do governo Trump concluiu que práticas brasileiras em seis áreas são “irrazoáveis” e “oneram o comércio americano” — propondo como contramedida uma tarifa adicional de 25% sobre a maioria dos produtos exportados pelo Brasil aos EUA. A decisão final pode entrar em vigor até 15 de julho de 2026.
O instrumento legal usado é a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — um mecanismo que permite a Washington impor tarifas unilaterais sem aprovação da OMC. Desta vez, o Brasil está no banco dos réus. Entenda o que está em jogo.
Uma Arma Comercial de Meio Século
Criada durante o governo Nixon, a Seção 301 permite ao USTR investigar e punir com tarifas unilaterais práticas estrangeiras consideradas injustas ao comércio americano — sem depender de organismos multilaterais como a OMC. O mecanismo foi a base das maiores guerras tarifárias das décadas de 1980 e 1990, voltando ao protagonismo sob Trump. Diferente da Seção 232 (segurança nacional), a 301 foca em práticas comerciais específicas. No caso brasileiro, o USTR ouviu 30 testemunhas e recebeu mais de 295 manifestações ao longo de quase um ano de investigação.
Os Seis Eixos da Acusação Americana
O relatório do USTR enumera seis conjuntos distintos de práticas brasileiras que, segundo Washington, prejudicam os interesses comerciais americanos:
| Eixo | O que os EUA alegam |
|---|---|
| 1. Comércio Digital e Pix | Tribunais emitiram ordens secretas contra X, Meta e Google. O Pix favorece o “campeão nacional” em detrimento de empresas americanas de pagamento. |
| 2. Tarifas Preferenciais | O Brasil concede tratamento preferencial a México e Índia via acordos parciais, colocando exportadores americanos em desvantagem competitiva. |
| 3. Combate à Corrupção | Aplicação insuficiente das leis anticorrupção, gerando incerteza jurídica para empresas estrangeiras operando no Brasil. |
| 4. Propriedade Intelectual | Falhas na proteção de patentes afetando empresas farmacêuticas e de tecnologia americanas — ironicamente o maior grupo de depositantes no Brasil. |
| 5. Mercado de Etanol | Tarifa de 18% e cotas sobre o etanol americano. Importações dos EUA caíram 94,4% — de US$ 896 mi (2017) para US$ 50,5 mi (2024). |
| 6. Desmatamento Ilegal | O desmatamento reduziria custos de produção do agronegócio brasileiro vis-à-vis produtores americanos sujeitos a regras ambientais mais rígidas. |
O Que os Números Revelam
O governo Lula apresentou um conjunto de dados que questionam a narrativa de “práticas desleais” — mostrando que o mercado brasileiro é amplamente aberto às exportações americanas e que os EUA, de fato, acumulam superávit na relação bilateral:
| Indicador | Valor | Contexto |
|---|---|---|
| Superávit dos EUA com o Brasil | US$ 424,5 bi | Acumulado entre 2011 e 2025 (bens e serviços) |
| Superávit americano só em 2025 | US$ 40,5 bi | Considerando bens e serviços conjuntamente |
| Importações dos EUA isentas no Brasil | 76% | Dos produtos americanos entraram sem imposto em 2025 |
| Alíquota média efetiva sobre produtos americanos | 3,1% | Média real cobrada — dos mais baixos entre grandes economias |
| Royalties pagos aos EUA pelo Brasil | US$ 1,38 bi | Só em 2024 — o dobro do registrado em 2020 |
| Participação dos EUA nas exportações BR | 9,4% | Q1 2026 — menor nível histórico da série |
O Pix no Centro do Conflito Digital
Entre os seis eixos, o capítulo do comércio digital é o mais controverso. O USTR afirma que ao tornar o Pix uma infraestrutura pública dominante e gratuita, o governo brasileiro criou uma barreira competitiva indireta contra Visa, Mastercard e PayPal. O relatório ainda cita que o X foi proibido de operar no Brasil entre agosto e outubro de 2024, sendo restabelecido após pagar multa de US$ 5 milhões, e que a plataforma Rumble permanece suspensa desde fevereiro de 2025. O governo Lula rebate que o Pix tem regras aplicadas igualmente a nacionais e estrangeiros, e que nenhuma big tech americana enfrenta restrições ao ecossistema de pagamentos brasileiro.
Isentos vs. Taxados: O Que Está em Jogo
A proposta inclui 73 páginas de exceções — reflexo direto da dependência americana de insumos brasileiros sem substitutos imediatos no mercado global:
| ✅ Isentos da Tarifa de 25% | ⚠️ Sujeitos à Tarifa de 25% |
|---|---|
| Carne bovina (cortes específicos) | Etanol combustível |
| Café (73 pgs de isenções) | Açúcar (já enfrenta ~80% fora da cota) |
| Suco de laranja (73% do consumo americano) | Calçados e manufaturados |
| Aeronaves e peças (Embraer) | Têxteis e vestuário |
| Petróleo bruto e derivados | Máquinas e equipamentos |
| Terras raras e minerais estratégicos | Papel e celulose |
| Compostos farmacêuticos | Produtos siderúrgicos |
| Açaí (100% do consumo americano) | Couro e derivados |
Cronograma: A Corrida Contra o Relógio
| Data | Evento |
|---|---|
| 15 Jul 2025 | Trump determina abertura da investigação Seção 301 contra o Brasil |
| 7 Mai 2026 | Lula e Trump se reúnem na Casa Branca; acordam grupo de trabalho bilateral |
| 1 Jun 2026 | USTR publica conclusão da investigação e propõe tarifa de 25% |
| 1 Jul 2026 | Prazo final para comentários públicos ao USTR |
| 6 Jul 2026 | Audiência pública — testemunhos antes da decisão final |
| ⚡ 15 Jul 2026 | PRAZO FINAL — EUA decidem se aplicam, modificam ou descartam a tarifa |
📰 Fontes Nacionais
CNN Brasil Governo manifesta “indignação” com ameaça de novo tarifaço dos EUA 76% das importações dos EUA entraram no Brasil sem imposto em 2025. Brasília acusa família Bolsonaro de provocar a investigação. Agência Brasil Brasil rebate EUA e chama investigação de ingerência Governo defende o Pix, contesta dados do USTR e reafirma abertura do mercado brasileiro para os produtos americanos. Estadão Seção 301: EUA propõem tarifa de 25% — o que o Brasil pode perder Análise dos setores mais expostos: manufaturados, celulose, etanol e couro são os mais vulneráveis à sobretaxa americana.
O Que Esperar dos Próximos 43 Dias
Apesar do tom duro de ambos os lados, negociadores ainda têm margem de manobra antes do prazo final de 15 de julho. O representante Jamieson Greer deixou explícita a disposição para continuar o diálogo. Nos bastidores, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) já sinalizou risco severo para as exportações brasileiras, e o governo avalia acionar a OMC caso a tarifa seja efetivada. A Lei de Reciprocidade Econômica brasileira dá ao Executivo poder para adotar contra-medidas proporcionais.
O cenário mais provável, segundo analistas, é um acordo parcial: o Brasil fará concessões em etanol e propriedade intelectual, enquanto os EUA reduzirão o escopo das tarifas ou adiarão a implementação. Uma guerra tarifária total não interessa a nenhum dos dois lados — os EUA dependem de insumos brasileiros sem substituto imediato, e o Brasil já viu a participação americana nas suas exportações cair ao menor nível histórico.
🌐 Fontes Internacionais
Reuters Trump Administration Proposes 25% Tariff to Punish Brazil Over Trade Practices Measures cover digital trade, electronic payments, preferential tariffs, IP, ethanol and deforestation. Deadline July 15, 2026. Bloomberg US Proposes 25% Tariff on Brazil Over Digital Trade and Deforestation Brazil runs a persistent trade deficit with the US. Exemptions include beef, coffee, rare earths, crude oil and Embraer aircraft. BBC News Brazil Faces US Trade Showdown as Section 301 Deadline Looms Lula and Trump met in May but failed to resolve key differences. Brazil can still use its economic reciprocity law to retaliate.
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✍️ Redação CotidiaNews

